Publicado em 20 de março de 2026 · Leitura: 10 minutos
Em investigações de crimes econômicos, o nome do executivo aparece com frequência em documentos, e-mails e contratos. Mas a presença física em uma negociação ou a assinatura em um ato societário não é, por si só, prova de autoria delitiva. A responsabilização penal exige muito mais: dolo, nexo causal e uma prova robusta que sustente a imputação individual.
O problema da imputação por posição hierárquica
Um dos erros mais comuns nas investigações de crimes econômicos é a imputação por domínio do fato sem a devida individualização da conduta. O simples exercício de cargo de direção ou gerência não torna o executivo coautor automático de todo ato praticado pela empresa sob sua supervisão.
A teoria do domínio do fato, importada da doutrina alemã e aplicada pelo STF no caso da AP 470 (Mensalão), foi progressivamente deformada em sua aplicação pelas instâncias inferiores — passando a funcionar, na prática, como uma presunção de culpabilidade pelo cargo. O STJ tem corrigido essa distorção em reiterados julgamentos.
Indícios que fortalecem a defesa
- ✓Ausência de conhecimento comprovado do ato ilícito
- ✓Decisões tomadas com base em parecer jurídico
- ✓Ausência na operação específica investigada
- ✓Estrutura de compliance e governança implementada
Fatores que agravam a posição
- ✗E-mails com ciência direta do ato irregular
- ✗Benefício financeiro direto e rastreável
- ✗Aprovação expressa em reunião documentada
- ✗Histórico de condutas similares
A fase pré-processual como decisiva
Em investigações de crimes econômicos, os primeiros 30 dias após a instauração de um inquérito ou de uma operação policial são os mais críticos para a defesa. Decisões tomadas nesse período — como prestar depoimento voluntariamente, entregar documentos sem critério ou emitir notas públicas — podem comprometer irrecuperavelmente a posição do executivo.
A estratégia defensiva deve ser construída com base em um diagnóstico completo da investigação, que inclui: (a) mapear todos os documentos relevantes antes que sejam apreendidos; (b) identificar quais testemunhos podem auxiliar ou prejudicar; (c) avaliar a extensão do acervo probatório já coletado pelos investigadores.
Compliance como escudo — e seus limites
A existência de um programa de compliance robusto é relevante, mas não é uma absolvição antecipada. Para que o compliance seja um argumento defensivo eficaz, ele precisa ser real, documentado e efetivamente implementado — não apenas um manual na gaveta. O que os tribunais verificam é se o programa foi capaz de prevenir ou detectar o ilícito, e se o executivo agiu dentro dos parâmetros por ele estabelecidos.
Diego Paulino · Estrategista Jurídico · OAB/CE 37.270
Este artigo tem caráter informativo e não constitui assessoria jurídica individualizada.